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Infância, Juventude e Participação política

O interesse da pesquisadora do NEPP por uma sociedade menos desigual e socialmente mais justa, teve início muito tempo antes. O contato com a pobreza, ainda na infância, marcou a sua vida desde muito cedo e influiu, sem dúvida, nas escolhas futuras de sua vida e obra.

Nordestina apaixonada, Ana Fonseca foi a mais velha dos sete filhos e filhas de um casal católico. Nasceu em Fortaleza (Ceará, 1950), quando os pais dispunham de recursos que perderiam logo  depois, o que levou a família, durante um tempo, a viver em uma casa sem água corrente, nem energia elétrica.

As pistas desse passado vêm das palavras dela própria, no artigo “Os Filhos e Filhas da Terra Contam”: “(…) As marcas que ficaram em minha memória são como uma casamata de onde ainda hoje recolho forças para enfrentar os preconceitos de quem não tem noção da história (…) O tempo da seca, da falta d’água e da fome estava por todos os lados (…) Naqueles anos, a energia elétrica era um serviço precário. Em nossas casas estavam as lamparinas, os lampiões e as velas.”

A vivência da pobreza, no entanto, nunca foi motivo de lamento, mas de solidariedade. No mesmo artigo, ela relembra: “(…) a seca tangia para Fortaleza os moradores sem esperança e sem “o de comer” para a família. Os retirantes demoravam a chegar e quando apareciam, com acanhamento, em nossas portas, nós dávamos farinha, feijão e alguma rapadura. Aprendemos, então, a expressão ‘Deus lhe Pague’ (…) .

Ana sempre reconheceu a importância da educação e da leitura, hábito que adotou desde muito cedo, por meio dos livros emprestados junto à biblioteca da igreja frequentada por sua família. Da alfabetização ao ensino fundamental, frequentou somente escolas públicas, tendo sido admitida por concurso em uma excelente instituição de ensino do Ceará, à época, o Colégio Justiniano de Serpa.

Esse Colégio lhe deu acesso a uma convivência próxima com pessoas de diferentes classes sociais, a um significativo alargamento de seu repertório cultural, à inserção em novas redes sociais e a uma reflexão política que alterou os rumos de sua vida.

Nesse convívio teve acesso a gêneros musicais e literários que desconhecia e, principalmente, a um pensamento político crítico, no movimento secundarista. Essa experiência a levou à militância clandestina numa organização política de esquerda – a Ação Popular (AP) – num contexto em que o Brasil vivia sob uma ditadura militar.

Decidida a atuar em fábricas e na zona rural, mudou-se para Recife. Lá, aos 19 anos, foi presa e levada para o DOPS – Delegacia de Ordem Política e Social e sofreu torturas durante 50 dias até ser transferida para a Colônia Penal Bom Pastor. Foi condenada a 5 anos de prisão, depois reduzida para 2 anos, após recurso ao Supremo Tribunal Federal.

Ana Fonseca saiu da prisão aos 21 anos e retornou à Fortaleza, onde trabalhou na Casa Parente, loja de variedades, depois como secretária num curso preparatório para o Colégio Militar. Mas já estava decidida a migrar em busca da universidade.

Após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, ingressou no curso de graduação em História, da UNICAMP, instituição na qual permaneceria vinculada por toda a vida. Ali concluiu sua graduação e o mestrado em História (1984).  Em 1998, concluiu o doutorado em História Social, na  Universidade de São Paulo.  Esses estudos, a dissertação “Das raças a família”, analisando o pensamento social brasileiro relativo a essas problemáticas, e a tese “Família e Política de Renda Mínima”, na qual acompanhou as famílias beneficiárias do programa da prefeitura de Campinas, foram fundamentais na sua formação e tiveram efeitos na gestão, pois lhe ofereceram elementos para a formulação e implantação dos programas nos quais trabalhou.

Logo ao chegar em Campinas, Ana iniciou sua  participação no movimento estudantil, no período da reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE). Participou do congresso de reabertura da entidade, em Salvador (1979). Na mesma época, ingressou no Coletivo Feminista de Campinas, no qual permaneceu de 1977 até 1984. As reflexões que desenvolveu neste período foram importantes para sua recusa do “planejamento familiar” como condicionalidade para as beneficiárias do Bolsa Família, muito mais tarde.

Em 1986, casou-se com Adriana Piscitelli, também pesquisadora da UNICAMP, amor de sua vida por mais de três décadas, até seu falecimento.

Ana tornou-se paulista, por adoção, e corintiana devotada . Colecionou amigos e afetos por onde passou, no Brasil e no mundo, encantando com seu humor e cantando músicas das quais poucos se lembravam, especialmente os sambas tradicionais, mas também tangos.

Nas palavras dela mesma, gravadas em vídeo, em 2011, um resumo de sua percepção sobre a própria trajetória: “A vida tem me aberto as portas e o coração para eu aprender muitas coisas. Fazer do Brasil um país sem miséria? É o sonho de qualquer brasileiro. É algo que não tem a ver com colorações políticas, partidárias. É um sonho que realiza um dos objetivos da nossa Constituição (…) O Brasil sem Miséria é um plano, ambicioso, generoso, e eu tenho muita sorte na vida de estar participando desse projeto de Brasil.”

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